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UMA CONVERSA COM DAVIDE VASSALLO

 

Olá Davide! Muito obrigado por dividir seu tempo com a rede SPE. É uma honra entrevistá-lo, eu esperava muito este momento. No entanto, vamos começar pelo início. Embora eu provavelmente devesse apresentá-lo aos nossos leitores, eu pensei que a melhor forma de o fazer serial lhe fazer minha primeira pergunta: quem é Davide Vassalo?

 

Sou um visionário e um otimista pragmático, visando um melhor futuro e aproveitando a vida presente. Também sou o Diretor Global de Operações na DuPont Sustainable Solutions, o negócio de consultoria em gestão de operações da DuPont. Eu tenho trabalhado na área da Sustentabilidade por toda a minha carreira e sou apaixonado por ajudar empresas a protegerem pessoas e o meio ambiente, gerenciar riscos operacionais, melhorar o desempenho dos negócios e, por fim, aumentar o valor que nós criamos para a sociedade. Já trabalhei com empresas de vários setores como petróleo e gás, transportes, telecomunicações, químicos, manufatura e infraestrutura. Vivo em Philadelphia, Pensilvânia, mas sou italiano de nascença e já vivi e trabalhei ao redor do mundo todo.

 

Perfeito! Na verdade, eu te conheço de alguns anos atrás, de antes de você juntar-se à DuPont, onde teve uma carreira fantástica. Foi muito bom encontrá-lo recentemente e participar do XXI Congresso Mundial de Saúde e Segurança em Cingapura, um fórum organizado pela ILO a cada 3 anos, e dentro do meu conhecimento, é o maior evento de saúde e segurança do mundo. Três dias de aprendizado, compartilhamento e networking.  O que você aprendeu com isto?

 

Você está certo, é um evento muito bom. Durante o Congresso de Setembro de 2017 em Cingapura, eu ouvi várias estatísticas alarmantes. A Organização Mundial do Trabalho (International Labour Organization - ILO) reportou que aproximadamente 2.78 milhões de trabalhadores morrem anualmente devido a lesões e doenças relacionadas ao trabalho. Esta perda de vidas não somente é de partir o coração, mas também tem um impacto de USD $3 bilhões na economia global, o que é o equivalente a quase 4% do GDP global.

 

Saber disso é realmente alarmante, mas eu acho que é bom ter estatísticas coletadas e divulgadas por uma entidade tão crível como a ILO. E, para mim, também foi chocante descobrir que, a cada ano, há 380 mil fatalidades devido a acidentes de trabalho no mundo todo. O que podemos fazer sobre isso?

 

Embora ainda tenhamos muito trabalho para fazer, eu me senti encorajado em ver que a comunidade de HSE (Health, Safety, Environment – Saúde. Segurança, Meio Ambiente) esteve representada no Congresso em um número muito maior do que eu estimava. Os participantes estavam motivados, engajados, capacitados e prontos para tomar ação. Eu acredito que nós da área de HSE temos uma oportunidade, e a habilidade, de mudar a percepção de que a comunidade de segurança é tática e técnica. Nós precisamos ser mais estratégicos, mais visíveis e promover uma mudança de foco: da conformidade para a criação de valor para nossas organizações e a comunidade como um todo. Se nós nutrirmos o talento que temos na comunidade de HSE e além, eu acredito que podemos fazer um impacto imenso na melhoria do desempenho em segurança e na redução geral dos riscos nas empresas de todo o mundo.

 

Concordo 100%. Como você sabe, eu acredito firmemente no que o que você está dizendo e, na verdade, esta é uma parte grande da minha motivação em fazer o que eu faço. Mesmo assim, organizações líderes em segurança como a DuPont podem ter um papel importante na evolução da cultura de segurança nas indústrias e auxiliar as comunidades de HSE. Onde encontra-se seu foco mais recente?  

 

Além de ter a habilidade de instituir mudanças como uma comunidade de HSE, os executivos estão nos contando que eles precisam de ajuda para melhorar a segurança e gerenciar melhor o risco em suas organizações. Neste verão, minha empresa DuPont Sustainable Solutions (DSS), trabalhou em uma pesquisa global para medir a maturidade da Gestão de Risco Operacional (ORM) em empresas de vários setores, e para examinar os desafios que as organizações enfrentam na gestão de riscos. Esta pesquisa é única, por focar na forma com a qual os riscos operacionais de uma empresa geram impacto no desempenho de seus negócios. Estes riscos operacionais vêm em uma variedade de tamanhos e formas, incluindo a segurança e saúde do local de trabalho, controle de qualidade, segurança do processo, disfunções na cadeia de suprimento, desafios em manutenção e confiabilidade e flutuações de produto. A pesquisa revelou que os executivos reconhecem que os processos de gestão de risco operacionais de suas empresas não são suficientes.

 

Isso é muito interessante, talvez não muito inesperado, mas certamente muito alarmante. Por que eles têm essa percepção?

 

Duas descobertas são particularmente alarmantes: primeiro, os executivos reconhecem que não estão dedicando recursos e competências suficientes para gerenciar efetivamente os riscos em suas empresas, o que ameaça a manutenção de seu direito de operar. Segundo, eles reconhecem que há um desalinhamento organizacional entre a liderança e os funcionários no que diz respeito à gestão de riscos, o que contribui grandemente na probabilidade de um evento catastrófico.

 

Ao menos parece que a área para intervenção está clara. Como você os ajudaria? 

 

Nós acreditamos que as empresas podem gerenciar melhor seus riscos operacionais e melhorar sua performance nos negócios adotando uma abordagem integrada, que relacione o desempenho do negócio, o entendimento dos riscos e a cultura organizacional. (Nota: neste ponto, Davide me apresenta um slide fácil de entender, apresentando o modelo da figura acima) O desempenho do negócio pode ser grandemente melhorado se os processos de gestão de riscos estão alinhados adequadamente aos objetivos de desempenho do negócio. É crítico que as empresas entendam, em um nível mais profundo, quais riscos operacionais elas enfrentam, para assim poderem alcançar seus objetivos. Entender os riscos, em todos os departamentos e funções, ajuda a gerenciar melhor o desempenho do negócio. Nós precisamos elevar a conscientização sobre riscos para todos na organização, e conectar os riscos operacionais com as operações da empresa para promover mudanças de verdade. Porque a cultura organizacional é a cola que une partes díspares da empresa e suas funções, ela precisa ser parte da solução. Desenvolver uma mentalidade sobre riscos irá ajudar os funcionários a anteciparem e gerenciarem os riscos de forma proativa, prevenindo assim as consequências adversas do dia a dia. 

 

Cultura é a cola! Alguns de nossos leitores devem lembrar de uma metáfora parecida que eu usei para expressar um conceito similar. Eu gosto de dizer que a segurança é como azeite de oliva, e acompanha cada prato em uma refeição mediterrânea hipotética! De qualquer forma, aumentar a conscientização sobre riscos em todas as partes na organização e relacionar segurança com produtividade é muito relevante em nossa indústria, a qual você está bem familiarizado, e precisamos manter um foco firme nisso.

 

Com certeza. Esta abordagem integrada – relacionando o desempenho do negócio, o entendimento dos riscos e a cultura organizacional – é aplicado no setor de petróleo e gás para gerar melhorias na segurança, gestão de riscos e produtividade. A indústria de petróleo e gás está realizando um excelente trabalho para diminuir TRRs, mas catástrofes continuam acontecendo. Por quê? Quando o preço do barril cai, os extratores de petróleo historicamente têm cortado custos, mas o impacto deste corte demora para aparecer. Como um barco cujo motor acabou de desligar, a maioria das grandes companhias petrolíferas continuam a ser carregadas por um momentum existente. Tradicionalmente, as empresas de petróleo e gás têm levado mais de quatro anos para ajustar as despesas operacionais em relação à deflação do mercado, devido ao portfólio e restrições operacionais inerentes à indústria. É durante estes tempos de instabilidade nos preços que a gestão de risco operacional – a identificação, avaliação e controle dos riscos, baseado nos níveis potenciais de severidade e probabilidade – devem permanecer uma prioridade para este setor. Tomar tais ações permitirá às empresas que evitem incidentes custosos e altas taxas indenizatórias, e assim podem continuar a ser rentáveis, garantindo a segurança de seus trabalhadores e mantendo seu direito de operar no futuro. 

 

Você vê uma tendência positivo neste tema, ou uma história que valha a pena contar?

 

Através do trabalho de consultoria que fazemos em DSS com nossos clientes do setor de petróleo e gás, nós vemos uma tendência positiva no aumento da conscientização de risco entre os funcionários, simplificando os sistemas de HSE e levando à disciplina operacional. Mas, para romper o platô na performance de segurança e reduzir eventos catastróficos, nós precisamos de mudanças inovadoras, não apenas na tecnologia e nos processos, mas na mudança das crenças e mentalidades dos funcionários e na cultura de segurança da organização. Quando estas quatro áreas trabalham juntas, de uma maneira integrada, o desempenho em segurança e gestão de riscos irá melhorar. 

 

Contribuir na formação de uma cultura de segurança mais forte é fundamental, mas não pode haver uma mudança cultural sem uma mudança comportamental. E a “forma

como fazemos as coisas por aqui” – minha definição favorita para cultura – é o resultado de crenças e mentalidades, como você disse. Frequentemente, a segurança é percebida como algo chato ou desinteressante. Isto é um problema. Nós precisamos aprender a comunicar sobre HSE para os corações das pessoas, e não somente para os cérebros, se nós quisermos mudar as mentalidades e influenciar novos comportamentos organizacionais.

 

Como eu havia dito antes, elevar a conscientização sobre risco, e certamente engajar os funcionários, é um fator crítico para melhorar o desempenho em segurança e gerenciar riscos. O movimento viral em segurança que está acontecendo na Itália é um exemplo fantástico de como uma comunicação de impacto pode envolver pessoas e elevar as percepções do risco. O líder em programas de segurança, criado pela Saipem e disponibilizado pela LHS Foundation, é um exemplo fantástico de como a mudança cultural e métodos comunicacionais inovadores podem inspirar, engajar e promover mudanças, e criar líderes em segurança em toda uma comunidade ou até mesmo um país.

Através de meios inovadores que tocam as pessoas todos os dias – filmes, teatro, música – o programa LIS está criando uma comunidade de líderes da segurança em todo o país. Esta colaboração entre corporações, escolas e municipalidades está tirando a segurança do modo de complacência e trazendo-a para as famílias da Itália.

 

Obrigado por compartilhar, é um ótimo reconhecimento. Apesar de nós dois trabalharmos internacionalmente, como italianos nós temos um dever de ajudar nosso país a se desenvolver. Certamente, a aplicação social daquilo que nós aprendemos que funciona em um contexto de organização complexa é uma exploração muito interessante. O entusiasmo e a mudança gerada nos dizem para continuar assim. 

 

Seu movimento está bem alinhado com o que acreditamos em DSS: ganhar as mentes e corações dos funcionários e comunicar com afeto pode mudar a cultura de uma organização e aumentar a segurança, bem como o desempenho do negócio.

 

Sem dúvida, nossas crenças estão alinhadas. Qualquer profissional de HSE dedicado deve reconhecer o pioneirismo da DuPont em novas maneiras de gerenciar a Saúde, Segurança e Meio Ambiente. Pessoalmente, a história da empresa e do seu trabalho sempre foi muito influente. Por isso tê-lo aqui compartilhando seus pensamentos foi particularmente precioso. Muito obrigado novamente pelo seu tempo.

 

Foi mesmo um prazer, especialmente em saber que a SPE-Itália tem uma comunidade profissional jovem muito boa e ativa. Eu espero que todos os futuros líderes sêniores deste setor injetem paixão, inovação e HSE em todos os aspectos do negócio. Boa sorte a todos!