Desperdício de Alimentos: O Viés Perigoso

Para atender a demanda mundial de alimentos no ano de 2050, a produção global de cereais precisará crescer quase um bilhão de toneladas por ano, em relação aos 2,1 milhões de toneladas de hoje, e de carne das atuais 200 milhões de toneladas para 470 milhões. A projeção, elaborada pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, acrescenta que, em termos de recursos financeiros, os países pobres – onde vivem, atualmente, cerca de 870 milhões de pessoas, 12,5% da população mundial, em estado de desnutrição crônica – precisarão de investimentos que somam US$ 44 bilhões por ano, em auxílios. O valor representa cinco vezes mais os atuais US$ 7,9 bilhões anuais que correntemente são aportados.

 

Mas um argumento equivocado tem surgido a partir de matérias genéricas e superficiais sobre um recente estudo denominado Global Food: Waste not, Want not. Este trabalho foi elaborado pela Institution of Mechanical Engineers, organização inglesa que reúne cem mil membros engenheiros. O eixo da reflexão aponta a necessidade de investimentos em inovações tecnológicas com o objetivo de ampliar a produtividade nas atividades agropecuárias a maior produção de alimentos. Mas, as interpretações apressadas deslocam a questão para o lado da redução dos recursos naturais.

 

O viés perigoso a partir da leitura desatenta do trabalho é considerar que os países, no momento, já produzem alimentos em quantidade suficiente. O problema é eles não chegarem a todas as pessoas devido ao elevado grau de desperdício de alimentos no consumo, pelas sociedades. Isso causa os graus de desnutrição alertados pela FAO. Na verdade, o conteúdo do documento revela a falta alimentos não devido à superprodução mundial de alimentos e sim ao desperdício provocado pela “falta de conscientização” de consumidores com poder aquisitivo. Acertadamente, o estudo dos engenheiros britânicos reforça a importância do aprimoramento tecnológico para a produção de alimentos.

 

O estudo critica os critérios adotados pelos consumidores de maior renda, na escolha de produtos e alimentos diferenciados pelas suas aparências, sem considerar os valores nutricionais.  Existem outras causas de desperdício de alimentos apontados pelo trabalho. É o caso devido do pouco tempo de exposição nas prateleiras, em decorrência dos prazos de validade exageradamente rigorosos, assim determinados por órgãos regulatórios. A infraestrutura inadequada de transportes e armazenamento, principalmente na cadeia de frios, é outro problema. E cabe acrescentar ainda mais dois fatores: um deles relacionado à características inerentes à atividade agrícola; o outro, que reforça os dados da FAO, relativos à importância estratégica dos investimentos em pesquisa e inovação (P&D).

 

As intempéries climáticas frustram, frequentemente, as colheitas mesmo em potências agrícolas. Os Estados Unidos, por exemplo, como se registrou na sua safra 2012/13 teve uma das maiores secas da história, com a quebra de me 120 milhões de toneladas entre as culturas do milho e soja. Os agricultores norte-americanos não sofreram uma derrocada financeira ainda mais brutal por causa da política de seguro rural forjada desde a primeira metade do século passado, fortalecida por uma robusta carga de subsídios – como apontou a Organização Mundial do Comércio, OMC, ao decidir em favor do Brasil o contencioso em torno do algodão.

 

Finalmente, também é fator da queda na oferta de alimentos a baixa produtividade das culturas em países pobres e em desenvolvimento. Grande parte das áreas mais pobres do planeta está localizada justamente na zona rural, onde é reduzida adoção de tecnologias: sementes híbridas melhoradas e geneticamente modificadas; mecanização, irrigação, fertilizantes; defensivos agrícolas e armazenagem. Vale destacar a importância dos defensivos agrícolas para os ganhos de produtividade – os números representam as médias apuradas; em alguns casos, as perdas podem chegar a 100%. Pesquisadores e a comunidade científica ressaltam esta realidade na agricultura.

 

Segundo a Embrapa, a doença Ferrugem Asiática pode diminuir em até 80% a produtividade de uma lavoura. No algodão, a virose Mosaico das Nervuras pode reduzir a produção em até 60%; nos canaviais, a infestação de cupins pode causar danos de até 10 toneladas por hectare; na cultura do milho, a lagarta do cartucho representa um potencial de até 60% de perda na produção de grãos. Como na safra 2012/13 a produção de grãos atingiu 183,6 milhões de toneladas, sem a produção de suas lavouras tem-se uma ideia do volume hoje faltaria no celeiro de alimentos do Brasil.

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